É cada vez mais preocupante o número de consumidores e famílias endividadas no Brasil, de acordo com várias intituições de pesquisa. Digo preocupante, pois é também provado que quando um indivíduo tem dificuldades financeiras há reflexos negativos em outras esferas da sua vida, e sintomas como baixa autoestima, desmotivação, insonia, baixa produtividade profissional, problemas conjugais e emocionais começam a aparecer. As matérias jornalísticas muitas vezes atribuem este movimento de endividamento nacional aos momentos de crise econômica, destacando como vilões aspectos como a inflação e a taxa básica de juros. Infelizmente, isso não é verdade absoluta.

 

É evidente que inflação alta e altas taxas de juros pressionam o orçamento das famílias – não estou defendendo posição contrária a estes fatos. O que ocorre, porém, é que ao analisar a relação de endividamento da população ao longo dos anos, percebe-se que em nosso histórico econômico recente, mesmo em momentos de pujança econômica, há grandes e preocupantes índices de endividamento e inadimplência. Um dos motivos para que isso aconteça, é que com a economia aquecida, o acesso a crédito é ainda mais facilitado, este que é um dos principais propulsores do endividamento das famílias. Falarei mais disto em instantes.

Antes de atingir o auge desta discussão, faço uma consideração extremamente pertinente: Dívida não é, necessariamente, ruim. Em palestras, ao perguntar às pessoas se dívida é ruim, é muito comum escutar um sonoro “Sim”. A boa notícia é que na verdade, dívida pode ser uma estratégia inteligente a depender de algumas caracterísitcas que vou listar, de tal maneira que, estar endividado não é sinônimo de fracasso. Muito pelo contrário – do meu ponto de vista, não deveríamos aprender a nos livrar das dívidas, pois para a esmagadora maiorira das pessoas, isto seria utópico. Devemos sim aprender a conviver com dívidas, a dominá-las, e não o contrário.

 

Mas, afinal de contas, o que é uma dívida ruim e o que é uma boa dívida?

Precisamos classificar as dívidas entre dívidas de valor, dívidas sem valor e dívidas geradoras de renda. A primeira classe, agrega valor a nossa qualidade de vida. Imagine que você não tem condição alguma de adquirir um imóvel à vista, e para tanto, precisa se endividar. Contudo, um imóvel irá trazer mais comforto, segurança e qualidade de vida para você e sua família. A análise aqui não é se é mais vantajoso alugar ou comprar um imóvel no Brasil. Por hora, estamos apenas avaliando se o bem ou serviço adquirido através de um mecanismo de endividamento irá promover uma real contribuição para a sua qualidade de vida. Dívidas de consumo como roupas, presentes, assessórios, dentre outras, normalmente não entregam esta contribuição real para sua qualidade de vida, principalmente quando se analisa esta contribuição sob a perspectiva de médio e longo prazos.

Há ainda as dívidas geradoras de renda, que podem ser benéficas para a sua saúde financeira no médio prazo, se contraídas com inteligência financeira. Imagine uma costureira adquirindo uma máquina de costura mais moderna. Se existe a perpectiva de que a ampliação da renda (preferencialmente no período de pagamento da máquina) seja superior ao serviço da dívida (amortização do principal mais os juros), haverá sentido financeiro na decisão de “comprar a dívida”.

Estar endividado pode ainda ser mais ou menos assertivo a depender do período financeiro no qual o indivíduo se encontra. São três grande períodos; i) construção, ii) acumulação e iii) desinvestimento. Em média, até os 35 anos, estamos investindo na construção da nossa carreira profissional e na consolidação da nossa base acadêmica. Neste período, em média, nossa renda é ainda inferior ao pico de renda que deveremos alcançar na etapa seguinte. Após os 35 e até os 65 anos, em média, ingressamos em etapa de acumulação. O motivo é simples; após uma década ou mais de investimento em nossas carreiras, estudos e com maior maturidade, espera-se que atinjamos maiores níveis de produtividade e, como consequência, oportunidades profissionais mais atraentes começam a surgir. A útlima etapa, de desinvestimento, propõe que sempre que possível, começemos a optar por reduzir o ritmo e desfrutar do capital acumulado na etapa anterior.

Conhecendo os períodos financeiros comuns, é possível afirmar que uma dívida de longo prazo adquirida através de crédito estudantil (dívida de valor) para um jovem de 25 anos, é provavelmente mais saudável que a mesma dívida adquirida por um jovem de 65 anos, embora estejamos falando da mesma dívida. A razão? Espera-se que os compromissos futuros desta dívida impactem menos o orçamento futuro do jovem de 25 anos, uma vez que sua perspectiva é de renda crescente, ao passo que para nosso jovem de 65 anos, regra geral, espera-se uma renda descrecente ou estável no futuro.

Fundamental é lembrar sempre que, independentemente do tipo da dívida, do período financeiro na qual você se encontra, da sua capacidade de endividamento; é sempre importante contratar dívidas, quais sejam, com planejamento! Assim, você evitará que as parcelas futuras comprometam a saúde do seu orçamento financeiro. Mesmo as dívidas boas, quando não honradas, representarão um problema também bastante conhecido dos Brasileiros – a inadimplência. Este, precisa ser evitado sempre. Por isso a importância do planejamento ao adquirir o compromisso de pagamentos futuros.