Há uma briga antiga travada entre educadores e planejadores financeiros e os departamentos de publicidade, marketing e propaganda das empresas, no que diz respeito a convencer as pessoas do valor do dinheiro. De uma lado, levanta-se a bandeira que qualquer dinheiro tem seu valor e deve ser respeitado. Do outro, defende-se que “por apenas isso”, você pode adquirir uma coisa incrível, reduzindo assim a percepção do valor do dinheiro quando comparado aos benefícios do item oferecido. Pontos de vista e interesses a parte, a verdade é que assim como aconteceu nos últimos 100 anos, as chances são que os argumentos dos publicitários continuem a se sobresair frente aos apelos dos planejadores, no momento da tomada de decisão dos consumidores. Algumas razões explicam este comportamento, como os vieses de Aversão a Perda (loss aversion) e o Efeito Enquadramento (framing), apresentados pelos professores Kahneman e Taversky a partir de 1972. Por mais que os vieses comportamentais mencionados tenham sido desenhados para mapear o comportamento de um investidor, existem características e atitudes que se aplicam também ao comportamento dos consumidores.

Importante lembrar que os bons educadores e planejadores não são contra o consumo, ou contra o Marketing. É inevitável concordar que as ferramentas de convencimento publicitário permitem e estimulam o consumo. Quanto ao consumo em si, este gera riquezas, aquece o setor produtivo, cria empregos e contribui na formação do Produto Interno Bruto de um país. O que eu não apoio é o consumo exagerado por parte da sua família, ao ponto de levá-la a situações de inadimplência.

Sabendo então que o consumo exagerado pode ter consequências corrosivas em sua qualidade de vida, irei apresentar argumentos não tão convencionais, para tentar ajudá-lo na hora de resistir a uma compra não necessária. Combinado?

Seguinte, na maioria das vezes a reflexão proposta pelos planejadores e educadores financeiros é a de se questionar quanto a real necessidade de se adquirir determinado produto ou serviço, naquele momento. Sabe aquelas regrinhas, “pergunta-se antes se você realmente precisa daquilo, se precisa naquele momento, se não pode comprar amanhã ou depois, etc... e compre apenas se todas as respostas forem “sim”?

Esquece estas regras, elas não funcionam!

Quer saber a verdade? Muitas vezes nem os planejadores financeiros fazem isso! O que nos é despertado na hora da compra, quando estamos seduzidos inconscientemente por inúmeras estratégias de propaganda, não é o “preciso”, mas sim o “quero”, ou seja, o desejo.

Bem, se regrinhas como estas na prática não funcionam, vou compartilhar uma estratégia que por vezes funciona comigo. Para abrir mão do desejo ou impulso de compra, precisamos de algo que tenha mais valor do que uma simples reflexão acerca da necessidade de termos ou não aquele bem/serviço. Para tanto, teremos duas estratégias; uma emocional e outra técnica. Ambas tem poder de impactar nosso comportamento. As duas coisas se completam (falarei mais a respeito em instantes).

 

Porque os Publicitários normalmente ganham o jogo?

A verdade nua e crua é que quando ganhamos dinheiro, temos apenas duas coisas a fazer: guardar e gastar dinheiro. Se você pensou em “pagar”, trata-se de uma forma de gastar dinheiro – a única diferença aqui é que você já consumiu o produto/serviço associado àquele pagamento – ou seja, já gastou. Voltando as nossas opções, o que te dá mais prazer, guardar ou gastar?

Nós todos adoramos gastar dinheiro. A verdade é que guardar, ou poupar, representa abrir mão de qualidade vida hoje em troca de mais qualidade de vida no futuro. Logo, guardar dinheiro representa, de certa forma, um sacrifício, uma troca. Assim, as pessoas normalmente preferem gastar dinheiro.

Por isso aqueles argumentos matemáticos de “olha, se você deixar de tomar um cafezinho de R$ 3,00 todos os dias, em 40 anos você terá 400 mil, blá blá...” Esquece! A conta é até legal, mas ninguém vai parar de tomar café. Estou cansado de me deparar com pessoas que ficam extremamente impressionadas com contas como essas, mas que no dia seguinte continuam sem poupar sequer um real.

 

Como então reverter esse jogo?

Como eu havia comentado, para resistir aos apelos a consumo, precisamos de algo que tenha verdadeiro valor em nossas vidas. Um financista pode alegar que uma economia mensal de R$ 200,00 deverá ser perseguida, pois isto pode representar uma economia anual de R$ 2.400,00 (ou mais, caso o dinheiro seja investido). As pessoas se deparam com esta informação e no fundo, pensam algo como “OK, R$ 2.400,00 é um bom dinheiro, mas... eu não quero abrir mão disso, daquilo, eu trabalho muito, eu mereço, etc”. Para reverter esse jogo e conseguir combater este efeito, podemos contar com duas estratégias. São estas:

  1. Primeira Estratégia: Estabelecer seus Projetos de Vida: Por R$ 2.400,00 em um ano talvez você não esteja inclinado a mudar seus hábitos de consumo. Mas, e se invés de pensar em R$ 2.400,00, você pensar em uma viagem de final de semana com sua família ou amigos, no final do ano (algo que custe aproximadamente R$ 2.400,00)? Agora sim! Uma viagem bacana como esta tem muito mais valor que o dinheiro por sí só! Por um sonho, talvez você consiga abrir mão de determinadas compras. A lição aqui é que o “dinheiro pelo dinheiro” jamais será argumento forte o suficiente para equilibrar suas decisões de consumo.

 

  1. Segunda Estratégia: Conhecer o impacto negativo dos gastos desnecessários em sua Autosuficiência Financeira: Particularmente, posso afirmar que entender o reflexo negativo que gastos excessivos podem exercer na manutenção (ou construção) da minha autosuficiência financeira é bastante impactante. Aqui, estamos também falando de um grande projeto de vida – conquistar Autosuficiência Financeira (este, que considero que deveria ser objetivo da maiorira das pessoas, o que chamo de próposito financeiro abrangente – ah, e se sua busca é pela independência financeira, invés de autosuficiência financeira, esta estratégia serve para você também). [Leia nosso e-Book “Habilidades Essenciais para Enriquecer” para entender mellhor estes conceitos]. Por se tratar de um projeto financeiro, é possível realizar uma leitura técnica e de certa forma precisa do impacto destes gastos.

 

O que você começa a entender ao absorver estes conceitos, é que sempre que você deixa de construir Poupança ao optar por consumir, existe um Custo de Oportunidade de Consumo (“COC”) presente nesta decisão. A grande pergunta é, qual é esse custo?

Para a primeira estratégia, o COC representa a postergação, ou muitas vezes a não realização do seu projeto de vida, do seu sonho. No exemplo acima, o COC representaria a incapacidade de realizar a viagem familiar ao final do ano. Postergar ou deixar de realizar muitos sonhos, certamente irá gerar fortes frustações ao longo dos anos.

Já para a segunda estratégia, é possível calcular quanto você está abrindo mão de ter de dinheiro na sua idade-alvo para independência ou autosuficiência financeira, ao optar por gastar hoje. Me refiro a uma reflexão objetiva, algo como: ao gastar R$ 100,00 hoje, estou deixando de ter R$ 3.000,00 na idade que eu quero ter mais tranquilidade e independência.

A proposta aqui não é simular quanto uma economia mensal de R$ 100,00 reais, após “x” anos representaria. As pessoas muitas vezes sabotam esta conta com pensamentos como “Ah, 10, 20, 30 ou 40 anos é tempo demais... é muito difícil poupar R$ 100,00 TODO mês durante TODO esse tempo”. Por isso você deve conhecer seu Índice - Custo de Oportunidade de Consumo.

O Índice COC  faz com que você consiga rapidamente calcular quanto um gasto desnecessário ou supérfluo pode impactar sua aposentadoria. Mas lembre-se, não estou me referindo a uma poupança mensal contínua naquele valor. O Índice COC aponta o impacto por evento/por gasto. Ou seja, ele simula o impacto daquele único gasto na sua redução patrimonial futura. Para tanto, considero como idade-alvo para aposentadoria, 65 anos:

Uma pessoa de 30 anos, de acordo com a tabela, sempre que toma a decisão de gastar R$ 100,00 em algo que não está verdadeiramente precisando, está abrindo mão de R$ 1.520,00 em sua idade-alvo para aposentadoria (R$ 100 * Índice-COC aos 30 anos, de 15,20x). Se o gasto eventual fosse de R$ 400,00, estaria abrindo mão de R$ 6.080,00, e assim por diante (R$ 400 * Índice-COC aos 30 anos, de 15,20x). Ou seja, resistir a uma compra de R$ 400,00 reais hoje e investir este dineheiro, pode representar R$ 6.080,00 a mais para sua aposentadoria a preços de hoje (o índice já está descontado pela inflação prevista).

De forma simples: Em um ano, neste mesmo exemplo, quem consegue poupar e investir R$ 10 mil, está aproximadamente R$ 152 mil mais rico em sua idade alvo.

Naturalmente, o impacto conjunto de várias poupanças ao longos dos anos será sempre maior do que o impacto potencial de uma única poupança. No entanto, conhecer seu Índice-COC poderá blindá-lo de armadilhas como “R$ 100,00 uma vez na vida não muda nada”, e tantas outras. Agora você sabe: muda sim!

Caso você queira descobrir qual o seu Índice-COC, baixe aqui a planilha Índice – Custo de Oportunidade de Consumo. Nela, você poderá simular seu índice de acordo com sua idade atual e idade-alvo para aposentadoria.

Se você não faz parte do time de adeptos a planilhas, segue racional da fórmula para cálculo do Índice-COC:

Onde:
 

TP: Tempo de Poupança. Compreende a diferença entre sua idade-alvo para aposentadoria e sua idade atual.

il: Taxa de retorno dos seus investimentos, líquida de inflação e impostos.

 

A abordagem técnica do Índice-COC, não é tão aderente quanto a estratégia de eleger um projeto de vida que irá moldar seu comportamento. O próprio caráter técnico a torna menos dóssil. Esta estratégia funciona bem para quem definiu como grande projeto, alcançar independência financeira.

Contudo, o importante mesmo é refletir com mais atenção aos gastos desnecessários presentes em seu dia-a-dia. Assim, espero que independentemente da estratégia, você consiga resistir aos diversos apelos ao consumo, consiga poupar e investir parte dos seus ganhos, e, além de inúmeros projetos de vida, consiga também conquistar sua Autosuficiência Financeira!