Após a etapa de entrevistas com os convidados, dou início a um debate onde o público faz as perguntas.  

 

A primeira pergunta foi disparada ao Simon Carrazone, um dos empreendedores convidados:

 

- Na verdade não é uma pergunta, quero apenas parabenizá-lo pelo sua trajetória. Confesso que tinha preconceito pois pensava ‘fazer dinheiro tendo dinheiro’, sendo filhinho de papai (em tom pejorativo), é fácil demais. 
No entanto, você demonstrou muita humildade e me identifiquei demais com a sua história. Parabéns!

 

É foda como somos programados pra não querer ter dinheiro. Sobre aquele(a) que tem (ou parece ter), nós de alguma forma estranha não gostamos da pessoa, mesmo sem a conhecer sua história.

 

Praia de Copacabana, início de 2018

 

Há pouco mais de um ano, o Rick Chester desponta nas redes sociais como um verdadeiro fenômeno. Quebrando inúmeros recordes de visualizações, engajamento e audiência, o Rick é um ex-ambulante que vendia água mineral nas praia de Copacabana. Hoje, um escritor e palestrante disputadíssimo.

 

Um dos seus videos viralizou forte nas redes e em um ano o Rick dispara como uma das grandes inspirações empreendedoras, sobretudo para aqueles que estão começando.

 

Acho o cara genial, forte e admirável. 
No entanto, não quero falar dele. Quero falar do que ele representa.

 

Segundo o Rick, ele é "o resultado do não que ele deu para todos os nãos que ele recebeu". Ou seja, sem condições e sem oportunidades, mas persistente a batalhador.

 

É disso que o povo gosta.

 

Gosta tanto, que parece que o oposto disso, não agrada.

 

Vou tentar racionalizar meu ponto de vista acerca do assunto, sem polemizar. Para isso, deixo claro desde já: quem está no zero de verdade, e consegue "vencer", tem mais mérito do que aquele que consegue "vencer", mas que tinha estrutura e apoio. Isto é verdadeiro na maioria das vezes.

 

Não acho que é demérito não ter começado do zero, estou apenas constatando que deve realmente ser mais difícil empreender quando não se tem nada.

 

Agora, vamos pensar diferente.

 

Em finanças pessoais, parece louco, mas em muitas oportunidades as pessoas em estado de endividamento crônico tem mais chances de ter equilíbrio financeiro em até cinco anos, do que pessoas com orçamento equilibrado, ou seja, que não devem, mas também não investem.

 

Parece um contrassenso, mas depois que comecei a estudar finanças comportamentais me deparei com pesquisas que validavam esta aparente insensatez.

 

Ao chegar no superendividamento, a pessoa sente a dor e se incomoda. Muitas delas, não por opção mas por necessidade, por dor, tomam a decisão de reverter o cenário. Quando conseguem, conseguem também se preservar fora da zona de endividamento. Por natureza, evitamos dores conhecidas.

 

Os equilibrados, em situação mais confortável, são presas mais fáceis do crédito e do apelo ao consumo. 
No empreendedorismo é muito similar.

 

Aqui convido você a uma reflexão ‘pouco convencional’.

 

Quem está no zero ou até mesmo no "sub-zero", tem muitas opções?

 

Por que será que a quantidade de empreendedores com pouquíssimos recursos é tão superior à quantidade de empreendedores que já tem conforto, educação e moradia?

 

A Procura da Felicidade, filme foda que retrata a história de vida do Chris Gardner, nos apresenta um cara que lutou contra tudo e contra todos, sem condições, e venceu. É incrível!

 

Pergunta de 1MM de dólares – será que o Chris seria tão resiliente sem a adversidade? 

Acredito que não.

 

Primeira lição – a adversidade pode ser o seu maior presente.  

 

Se você não tem o apoio que gostaria, se alguém importante faleceu na sua família recentemente, se você convive ou conviveu com agressões, se você se depara ou se deparou com problemas envolvendo drogas, isto provavelmente é a sua maior fonte de combustível.

 

Você só precisa canalizar essa energia para o lugar certo.

 

Eu sei que pode ser uma afirmação forte, mas acredito demais no parágrafo acima. Acredito tanto, que estou registrando por escrito com você.

 

Inclusive, entender o papel da Adversidade nos faz respeitar o mérito dos "menos desfavorecidos".

 

Voltemos ao Happy Hour.

 

Você já parou pra pensar que aquele(a) que se encaixa no perfil "é fácil demais, o pai já tinha dinheiro...", ele(a) tinha a opção de não ingressar na carreira mais desgastante e mentalmente desafiadora que existe no planeta?

 

Já pensou que esta pessoa poderia fazer o que muitos amigos dele(a) optaram por fazer? Viver às custas da família, conviver com um emprego patrocinado, desfrutar de algum nível de mordomia que veio dos pais, etc?

 

Você já pensou que esta pessoa poderia fazer aquilo que talvez você optasse por fazer, o caminho mais fácil, mas ela escolheu empreender. Muitas vezes ciente de que este caminho poderia representar fracasso, desgaste, stress, decepção, medo e tudo aquilo que vem junto com a decisão de empreender?

 

Mesmo tendo opções, eventualmente encontramos pessoas que tem algum conforto, alguma estrutura, algum apoio, mas optam por empreender. Estas pessoas, na maioria das vezes, não recebem nossos aplausos sinceros.

 

Sempre teremos exceções, mas em muitos casos, não acho justo.

 

Por sinal, se você pensou que a Carta de hoje poderia servir como mecanismo de proteção contra sua opinião sobre mim, estava errado.

 

A Carta de hoje não trata do meu caso, é apenas uma reflexão acerca da colocação feita publicamente a um dos meus convidados no evento de ontem.

 

Quando o assunto é empreender, comecei do zero e com dinheiro próprio. Minha mãe não apoiava, mas pude começar pois tinha poupado e investido dinheiro ao longo de 09 anos, dos 16 até quase os 25.

 

Ninguém precisa ser Rick Chester para ter uma bonita história. Inclusive, se tem uma coisa que me convence cada vez mais, é que a ‘verdade’ sempre conecta.

 

Segunda lição – não existe classe, gênero ou origem nesse jogo. Admirar o próximo faz bem. 

No final do dia, estamos juntos.

 

Empreender, sobretudo no Brasil, é selva.
Merece respeito.

 

Abraços,

Arthur Lemos

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