O ambiente que o cerca é determinante nos seus resultados. Por isso, se tornou tão famosa a afirmação de que você é a média das cinco pessoas com quem mais convive.

Como diria T. Harv Eker, seus resultados são consequências das suas atitudes, que nada mais são do que uma resposta aos seus sentimentos, que, por sua vez, são reflexos dos seus pensamentos. Ou seja: nossos pensamentos guardam relação com os nossos resultados.

Na contramão desta ótica, há a opinião do Flávio Augusto da Silva – que eu, inclusive, compartilho - o ambiente não determina quem você é. No entanto, influencia.

Hoje quero falar sobre finanças.

Perceba como as pressões sociais conduzem, mesmo sem você perceber, seu comportamento enquanto consumidor.

Análise Social do Comportamento do Consumidor Brasileiro

O principal responsável por aguçar nossos desejos de consumo é a propaganda. Os meios de comunicação são matadores em suas campanhas e constantes apelos ao consumo. Não é privilégio de nenhuma classe social.

Não importa se você trabalha perto ou longe da sua residência (ou até mesmo home office), não importa qual o meio de transporte você usa, qual seu canal de televisão predileto, qual sua renda, quais redes sociais utiliza... Você, seus amigos, seus familiares e até mesmo seus filhos são bombardeados todos os dias por propagandas que os estimulam a consumir mais do que realmente precisam.

 

As empresas bacanas têm orçamentos agressivos para publicidade e propaganda e, muitas vezes, em algum momento, acabam nos convencendo de que precisamos de coisas que, muitas vezes, não precisávamos.

 

Sob o ponto de vista sociológico, os ciclos de vida do brasileiro médio evidenciam aspectos e pressões sociais que explicam muitas das nossas decisões financeiras ao longo das nossas vidas.

 

Muitas destas decisões são acompanhadas de dívidas que impactam nosso status financeiro por anos, às vezes até décadas. É preciso entender estes ciclos financeiros, para então romper com alguns comportamentos que nós adotamos sem sequer perceber!

 

Decisões financeiras importantes como adquirir um veículo ou um imóvel, são influenciadas por regras sociais impostas a nós. O perigo está na informalidade destas regras, pois as mesmas não estão escritas, e justamente por isto, não as percebemos. Vamos então entender como nosso percurso é influenciado por modelos sociais.

 

Para ilustrar este fenômeno, é preciso analisar o nosso ciclo financeiro individual e o nosso ciclo financeiro social. Combinados, teremos o entendimento de muitas das nossas decisões financeiras. Ao representar estes ciclos graficamente, em ambos os casos temos no eixo vertical nosso nível de riqueza e ao eixo horizontal, o tempo.

São três grandes períodos ou ciclos individuais; I) construção, II) acumulação e III) desinvestimento. Em média, até os 35 anos, estamos investindo na construção da nossa carreira profissional e na consolidação da nossa base acadêmica. Neste período, é esperado que nossa renda seja ainda inferior ao pico de renda que deveremos alcançar na etapa seguinte.

 

Após os 35 e até os 65 anos, em média, ingressamos em etapa de acumulação. O motivo é simples: após uma ou duas décadas de investimento em nossas carreiras, estudos e com maior maturidade, espera-se que atinjamos maiores níveis de produtividade e, como consequência, oportunidades profissionais mais atraentes começem a surgir.

 

A última etapa, de desinvestimento, propõe que sempre que possível, comecemos a optar por reduzir o ritmo e desfrutar do capital acumulado na etapa anterior. O terceiro ciclo individual é popularmente conhecido como o período da aposentadoria.

Já do ponto de vista sociológico, temos dois fenômenos sociais que impactam financeiramente a vida de muitos brasileiros. O gráfico acima representa um comportamento padrão da população brasileira, quando o assunto é evolução financeira pessoal e familiar.

 

Até os 30 anos, percebe-se que há um processo gradual de enriquecimento como apontado no gráfico. Em tese, no longo prazo, nosso país tende a crescer. O crescimento é mensurado, dentre outros fatores, através do Produto Interno Bruto, o PIB. PIB’s crescentes, significam mais geração de riqueza, que, em algum momento, chegarão às famílias, uma vez que mais riqueza deverá ser distribuída. Além disso, nossos pais ou responsáveis estão percorrendo suas fases de acumulação durante nossa juventude, até que atinjamos os 30 anos de idade. Ou seja, de forma ampla, a riqueza da família é crescente.

 

Neste momento tomamos uma decisão que representará um rompimento neste processo de enriquecimento. Na verdade, representará um empobrecimento, uma perda da qualidade do padrão de vida (sob a perspectiva financeira). É isso mesmo… esta decisão é o casamento!

 

O brasileiro casa em média, aos 30 anos de idade, de acordo com o IBGE. Perceba que a esta idade, um adulto já é economicamente ativo e gera renda. Porém, diferente de muitos países desenvolvidos, o jovem brasileiro demora bastante a deixar a moradia dos pais. Não é incomum encontrar jovens que, aos 30 anos (ou próximo dos 30), ainda desfrutam do conforto e do suporte da moradia dos pais. Este suporte muitas vezes significam não precisar contribuir financeiramente para gastos como aluguel ou financiamento imobiliário, água, energia elétrica, feiras, IPTU, lavagem de roupas, planos de saúde, dentre tantos outros. Evidente que cada família tem sua história, mas em linhas gerais, isto representa um potencial enorme de construção de poupança e/ou elevado poder de compra para o jovem brasileiro, pois na residência dos pais, muitos gastos relevantes são financiados pelos familiares. Ao casar, este suporte é perdido ou, no mínimo, significativamente reduzido.

 

Por precisar assumir muitos gastos que antes eram financiados pelos pais, o jovem casal percebe um pressionamento muito forte em seus orçamentos. Se formos contabilizar a quantidade de novas despesas para o casal, chegaremos a conclusão que a queda na qualidade de vida dele deverá ser relevante. No entanto, esta queda é muito menor do que deveria ser. Isto ocorre por dois motivos.

 

O primeiro deles é que o jovem brasileiro está acostumado a desfrutar de um altíssimo padrão de vida. Justamente por residir com os pais e por ter acesso a oportunidades atraentes de carreira ainda jovens (diferente do que acontecia nas gerações anteriores), o jovem no Brasil vive acima da média de qualidade de consumo do que o jovem médio no mundo. Perceba que o jovem brasileiro vai a festas todos os finais de semana, veste roupas da moda, pratica atividades físicas, vai ao cinema e frequenta bares e restaurantes com frequência. Isto acontece, guardando sempre as proporções, mesmo em comunidades pobres. A falta de cultura em educação financeira faz com que o jovem não tenha um planejamento financeiro de longo prazo, e assim gaste toda a sua renda atual em qualidade de vida. Ao casar, é comum que haja uma resistência em mudar bruscamente este padrão de qualidade de vida, nem que para manter parte destas escolhas de consumo seja necessário recorrer a dívidas eventualmente. Mudanças geram resistência.

 

O segundo motivo está relacionado com a prestação de contas social. A queda do casamento[1] não é tão significativa quanto deveria, pois a sociedade não permite que seja. Ao comunicar nossas famílias e amigos que iremos nos casar, há uma maratona de prestação de contas e justificativas. Perguntas como: “mas vocês já conseguem se manter”, “onde vocês vão morar”, “você vai conseguir ter o atual padrão de vida”, “vocês podem comprar a casa própria?". O resultado é que este casal vai tentar manter um padrão de vida similar ao que tem com os pais. Lembro que os jovens estão no ciclo financeiro individual de construção enquanto que os pais estão no ciclo de acumulação, provavelmente no pico de suas rendas – comumente, o padrão de vida dos pais é superior ao padrão de vida que o jovem casal pode bancar, sobretudo neste momento. Consequência? Endividamento. Faz-se dívidas para se aproximar do padrão de vida atual e para provar para a sociedade que o casal é capaz de manter aquela qualidade de vida. Preenche-se, assim, um sentimento de alívio para os pais e amigos, que passam e entender que “o casal está muito bem, pois tem uma casa linda, em bairro próximo ao meu, um carro bacana, etc”. O problema é que para ter tudo isso, dívidas de longo prazo pouco planejadas precisaram ser contraídas, pois, na maioria das vezes, este padrão de vida não cabe ainda no bolso do jovem.

 

Naturalmente, mesmo com as dívidas, o casal começa a abrir mão de momentos de lazer como consequência de um orçamento que está inflado com aluguel, prestações e financiamentos. A boa notícia é que isto é retomado em poucos anos, graças a evolução da renda esperada de acordo com nossos ciclos financeiros individuais. Após os 30 anos, ingressamos no ciclo da acumulação, e por sorte, a evolução da renda será maior que a evolução dos gastos e dívidas assumidas, de tal maneira que em poucos anos este casal retoma a qualidade de consumo que tinha antes do casamento. Como já é de nosso costume, e até para compensar o período de restrições, o brasileiro tende a elevar seu padrão de vida na mesma medida que cresce sua renda.

 

Nosso ciclo financeiro individual da acumulação é despotencializado pela necessidade de dar suporte financeiro aos pais, que já ingressaram na etapa de aposentadoria (explicarei este fenômeno a seguir).

 

Aos 65 anos, justamente quando ingressamos no ciclo financeiro individual do Desinvestimento, onde deveríamos desfrutar do capital acumulado na etapa anterior, nos deparamos com um problema. Nesta etapa, nossa renda tende a diminuir. Já os nossos gastos, tendem a aumentar – cuidados pessoais que antes eram considerados supérfluos passam a ser necessidades básicas, gastos associados a saúde tendem a crescer, nossa exigência natural por conforto aumenta, dentre outros fatores. Porém, em função dos motivos sociais até então apontados, não acumulamos o que poderíamos ter acumulado ao longo das nossas vidas até este momento. Não houve um planejamento financeiro adequado. Na verdade, na maioria das vezes, não houve qualquer planejamento.

 

Até pouco tempo atrás, esta falta de planejamento não era um problema tão grande. Por mais que não houvesse planejamento, o desinvestimento de alguns bens pessoais e a contratação de algumas dívidas, eram suficientes para manter o padrão de vida até o final da vida. Decisões socialmente corretas como se mudar para um apartamento menor, afinal de contas os filhos já saíram de casa, mudar para um carro mais simples, afinal de contas anda-se muito pouco, como tantas outras, começam a surgir. Digo socialmente corretas, pois se não houvesse problemas financeiros, a casa maior seria sim mantida, e os quartos dos filhos seriam transformados em quartos de hóspedes, home theatres, salas de estudo, etc.

 

Estas “estratégias” eram suficientes para garantir uma aposentadoria relativamente tranquila quando nossa expectativa de vida girava em torno dos 70 ou 75 anos de idade.

 

Nosso grande “problema”, é que estamos vivendo cada vez mais. Ou seja; chega um determinado momento onde não há condições financeiras de, sequer, manter o padrão de vida mínimo necessário para garantir dignidade e bem estar, após tantas décadas de trabalho e dedicação. É neste momento que acontecem acordos não escritos, onde os filhos começam a salvaguardar o padrão de vida dos pais. De forma delicada, os pais começam a receber convites para viagens com passagem e/ou hospedagem pagas, inclusão em planos de saúde, isenção de participação nas contas de restaurantes e por aí vai.

 

Os filhos por sua vez, em função da falta de planejamento financeiro dos pais, acabam comprometendo sua capacidade de acumulação em seus ciclos de acumulação. Consequência é que quando os pais se vão, novamente há uma compensação para o período de restrições e o brasileiro tende a elevar seu padrão de vida, não deixando espaço para construção de poupança. Não permitindo, assim, transferência de riqueza entre gerações e estimulando ciclos contínuos de endividamento das famílias.

 

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Em síntese - podemos até tentar escapar da “corrida dos ratos”, mas nem nossos familiares e vizinhos facilitam a jornada.

 

“Quem casa quer casa”, “isso tem que ter”, “aquilo não pode faltar”. E assim, seguimos sendo conduzidos, por vezes sem sequer perceber, ao padrão de vida que dificilmente nos permitirá liberdade.

 

Claro que este padrão de vida normalmente representa níveis elevados de consumo, que findam nos bolsos de um grupo restrito.

 

Não somos consequência absoluta do meio em que vivemos, mas somos indiscutivelmente influenciados.

 

Olhe ao redor – as chances são que você tenha sonhos similares, use roupas similares e busque um estilo de vidas similar ao dos seus pares.

 

Estas similaridades não são um problema em si, isto é consequência normal do convívio social.

 

A conta fica cara quando os objetivos das pessoas são inconscientemente estabelecidos a partir de pressões publicitárias.

 

Vigie seus sonhos.

Tenha certeza que estes são verdadeiramente seus.

 

Sigo torcendo por você e pelo seu sucesso.

Conte comigo.

 

Forte Abraço,

Arthur Lemos.


 


[1] O casamento não é a única decisão de natureza social que gera alto impacto financeiro. A chegada de filhos é, sem dúvidas, um acontecimento gerador de relevantes consequências ou impactos financeiros. Mas, uma vez que é menos preciso apontar o momento padrão e a quantidade de filhos por casal, este fenômeno não foi incluído na análise de impactos sociais sobre a evolução financeira de um indivíduo, muito embora haja impactos relevantes e indiscutíveis.

Ainda, entende-se que não há prejuízo relevante à análise, uma vez que na maioria dos casos a chegada dos filhos acontece no ciclo da acumulação, onde temos a premissa que o incremento da renda é suficiente para superar os gastos associados com a chegada do(s) bebê(s). Quando esta chegada acontece no ciclo da construção, ou quando não há capacidade financeira por parte dos pais, é comum também perceber um suporte adicional oferecido pelos avós ou demais familiares. Assim sendo, seguimos com a análise a partir do casamento.

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